rúbrica #1 // out 2019

cultura a 500 metros

Porque mais vale tarde do que nunca, trazemos-te a continuação da Rúbrica Cultural, agora recuperada com a nova reforma do site da AEFCM. Para primeira rubrica, depois de longo tempo de espera, vamos começar por explorar lugares bem aqui perto! Trazemos-te 4 sugestões de lugares a explorares pertíssimo daquela que a é a nossa casa – a muy nobre Faculdade de Ciências Médicas:

galeria monumental

terça a sábado | 15h-19h30

A Galeria Monumental é uma galeria para divulgação da arte contemporânea nacional e internacional. Apresenta mais de 10 exibições anuais no âmbito das artes plásticas, para além de realizar inúmeros ventos culturais. No sentido de promover a arte conemporânea portuguesa no estrangeiro, a Galeria tem vindo a concretizar vários projetos de intercâmbio de artistas. Tem existido igualmente uma forte aposta na realização de feiras de arte, tanto a nível nacional como internacional, através das quais se dá a conhecer o trabalho levado a cabo por artistas residentes

Exibição presente de 10 outubro a 10 novembro: pintura e desenho de Filipe Romão(“Instante crepuscular”) e Manuel San-Payo (“Planetas portáteis e outras ruínas”).

Campo dos Mártires da Pátria, 101
1150 – 227 Lisboa

Telf. 21 353 38 48
E-mail: gmonumental@gmail.com

museu da saúde

visitas livres à quarta-feira | 10h-18h

Quantos de nós não estagiam no Hospital de Santo António dos Capuchos e desconhecem a existência deste museu? Quer seja na próxima quarta-feira de estágio ou na próxima quarta-feira livre, que tal dar lá um saltinho? Além de exibir a exposição única “800 Anos de Saúde em Portugal”, descobre ainda:
  • O espaço virtual disponível, que agiliza o acesso à sua coleção
  • Iniciativa “Peça do mês” que, mensalmente, destaca um objeto do seu acervo: 
  • Exposições temáticas temporárias nos espaços do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e nas instituições parceiras.
Visitas para grupos (mínimo 5 pessoas) por marcação
 

Antigo Serviço de Neurocirurgia do Hospital de Santo António dos Capuchos Alameda de Santo António dos Capuchos
1169 – 050 Lisboa
Telf. 21 752 64 79/ 21 750 81 59
E-mail: museudasaude@insa.min-saude.pt

museu da dermatologia

visitas livres à quarta-feira | 14h-17h

E não é que não basta um museu? No Hospital de Santo António dos Capuchos está também disponível uma coleção de centenas de máscaras de cera onde é possível testemunhar os efeitos dermatológicos de uma série de doenças. Encontra-se situada no Salão Nobre deste hospital.

Hospital de Santo António dos Capuchos
Alameda de Santo António dos Capuchos
1169 – 050 Lisboa

museu miguel bombarda

quarta-feira | 11h30-13h // sábado | 14h-18h

Trata-se do museu do antigo Hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, hoje encerrado – foi o primeiro do país e tem um dos dois únicos panópticos sem tecto que se conhecem no mundo – o edifício é um círculo vazio no centro, onde existe uma torre que permite “ver sem ser visto”, para controlo do comportamento dos doentes.

Inclui edifícios surpreendentes e locais de diferentes épocas: o Pavilhão de Segurança, construído para doentes vindos das prisões, o Balneário D. Maria II, para banhos terapêuticos aplicados em psiquiatria, o Edifício Principal – uma ex-casa religiosa do século XVIII e, ainda, o gabinete onde Miguel Bombarda foi assassinado na véspera da Revolução Republicana.

Há disponível online um episódio do programa “Visita Guiada” (RTP 2), dedicado ao museu.

Rua Dr. Almeida Amaral, nº1
1150 – 138 Lisboa

o mundo sensorial de boris vian

texto do núcleo occipital sobre o livro «a espuma dos dias» de boris vian

Para começar, pouso suavemente a agulha do gira discos sobre o vinil de Duke Ellington. Com o single Chloe a ecoar pela casa fecho os olhos. Sou oficialmente uma turista em A espuma dos dias de Boris Vian, um artista engenheiro de mundos tão reais quanto se prolonga o meu pensamento. Aqui, os dias passam circulares com cheiro a maresia. Uma viagem em que o veículo é a rotina, a olhar o seu tão próprio acumular de espuma.

Conhecer Colin é também conhecer uma vida de pequenos prazeres. É habitar uma casa em que se sobem os vidros de várias cores, nos dias em que o amarelo não é particularmente agradável. É conhecer Nicolas, que pesca enguias na torneira da cozinha. É, claro, conhecer o pianococktail, que a cada nota faz corresponder um álcool, um licor ou uma substância aromática. É provar um terrível endless love.

 É também conhecer Chloé, o pequeno amor de Colin que vive com um nenúfar no pulmão, a doença que a obriga a estar sempre rodeada de flores. Vejo os pensamentos azuis e roxos da tão amável Chloé a mexer-se nas veias das mãos. Vejo os cantos do quarto modificados com o efeito da música, fazendo repousar os dois amantes no centro de uma esfera. Cheiro o açúcar com canela da nuvem que os envolve. Ocupo uma casa que acompanha o amor, o jazz e tudo o que importa.

Se existe uma fronteira na nossa existência é entre a manifestação do eu, e a manifestação do mundo que o rodeia. Se por um lado, os materiais que reconhecemos como vivos estão em lenta transformação, por outro a nossa consciência os experiencia com alucinante velocidade de metamorfose, através da sensação. É precisamente essa a fronteira em que nasce A espuma dos dias. Por entre esta breve passagem, sinto as leis da física reinventadas. A gravidade, a forma dos espaços, a cristalização de toda a matéria é completamente substituída pelo ato sinestésico.  Os cheios, os sabores, as cores, até as próprias emoções desafiam a rigidez dos materiais, habitam-nos, transformando a sua intransigência, em fluidez e metamorfose humanas.

Passa-me pela cabeça afirmar que este mundo é um sonho de filme surreal. Atrevia-me até a desvendar a beleza deste livro como o nascimento de um grande exercício de imaginação. Mas que é a realidade senão o nosso olhar sobre os dias e todas as coisas que se repetem? Este é um daqueles olhares que “vêm as coisas exatamente como elas devem ser vistas”.

conhece o occipital